Viaja o verbo solitário
aquém do sujeito.
Copia o descompasso
do arvoredo.
Salta um verbo luminoso
da tua boca
e engole as paredes
ao teu redor.
Brinca o verbo,
o verbo vadio
na impredicância
da tarde.
Canta
o verbo silencioso
e beija as bocas
dos adjetivos.
O verbo
vem envolvido no hálito
da tua manhã
e sai a passear com a brisa.
O verbo, o verbo.
Zomba das horas
e se deita preguiçoso
entre as reticências.
Sunday
A Bailarina
A bailarina rodeava a si mesma;
girava, subia e descia;
ia e voltava
igual mariposa
branca e desenfreada;
igual borboleta
leve e quase adormecida.
A bailarina girava e girava
em órbita elíptica e escandalosa;
zanzava e luminecia
igual vagalume,
igual balão colorido
de papel.
A bailarina flutuava igual pluma
no silêncio. Igual brisa
batendo no rosto;
baile silencioso.
Igual nuvem solitária
de verão.
girava, subia e descia;
ia e voltava
igual mariposa
branca e desenfreada;
igual borboleta
leve e quase adormecida.
A bailarina girava e girava
em órbita elíptica e escandalosa;
zanzava e luminecia
igual vagalume,
igual balão colorido
de papel.
A bailarina flutuava igual pluma
no silêncio. Igual brisa
batendo no rosto;
baile silencioso.
Igual nuvem solitária
de verão.
Tuesday
Tu e a Lua
O chão era a sola cansada;
o solo de um saxofone;
o cheiro da terra molhada.
o chão era carne pesada
e a lua era o teu sorriso
no rosto do céu.
O vento era um verbo vagando
debalde nas avenidas;
um velho voyeur flutuante.
O vento era o voar dos cabelos
e a lua era o teu sorriso
no rosto do céu.
A chuva era o véu das calçadas;
o rio que corria na alma
de cada um dos transeuntes.
A chuva era gosto de saliva
e a lua era o teu sorriso
no rosto do céu.
A chama era febre fervendo;
olho mirando a si mesmo;
fumaça pairando pelo quarto.
A chama era ferida aberta
e a lua pendia no céu
da tua boca.
o solo de um saxofone;
o cheiro da terra molhada.
o chão era carne pesada
e a lua era o teu sorriso
no rosto do céu.
O vento era um verbo vagando
debalde nas avenidas;
um velho voyeur flutuante.
O vento era o voar dos cabelos
e a lua era o teu sorriso
no rosto do céu.
A chuva era o véu das calçadas;
o rio que corria na alma
de cada um dos transeuntes.
A chuva era gosto de saliva
e a lua era o teu sorriso
no rosto do céu.
A chama era febre fervendo;
olho mirando a si mesmo;
fumaça pairando pelo quarto.
A chama era ferida aberta
e a lua pendia no céu
da tua boca.
Quando Amanheceu o Dia
Quando amanheceu o dia
ainda restava um verso.
Imagens bailavam detrás dos olhos.
Quando amanheceu o dia
ainda restava um samba.
Ainda restava um sonho
amassado no bolso da calça.
Tínhamos a vida pela frente
quando amanheceu o dia.
ainda restava um verso.
Imagens bailavam detrás dos olhos.
Quando amanheceu o dia
ainda restava um samba.
Ainda restava um sonho
amassado no bolso da calça.
Tínhamos a vida pela frente
quando amanheceu o dia.
Friday
O Quintal
I
Daquele silêncio
recordo as palavras
que não foram ditas.
Era de manhã
entre o orvalho, as formigas
e o amarelado da infância.
(Naquele tempo,
era sempre de manhã).
Lembro das vozes
caladas atrás da
respiração
e de como o quintal
parecia não caber
em meu olhar.
Eram palavras, palavras,
mas soavam como folhas
em branco.
Eu nunca poderia esquecer:
estrelas dançavam
feito vaga-lumes
por detrás do azul
e eu apenas aplaudia
silenciosa-
mente.
II
Não sei se o tempo passava
ou se era como um retrato
permanecendo,
permanecendo.
Não que faltassem ponteiros
a girar pelas paredes
e no alto das catedrais:
eles estavam lá. E giravam,
giravam.
Mas o tempo
transborda os ponteiros
e o calendário.
Parece mais com a parede
que com o relógio dependurado.
O tempo, o tempo
não cabe em agosto
ou nas catedrais.
O tempo não cabe nas fotos
dos calendários de farmácia
(essas apenas nos mostram
que os dias são todos
iguais).
O tempo, o tempo
transborda os retratos
do que não passa;
esconde-se atrás dos olhos
de cada um.
Constrói fortalezas,
impérios ocultos,
dissolve, uma a uma,
todas as manhãs.
O tempo, o tempo
não desvelará seu corpo
nas ruas ou nos cabarés;
não dirá segredos,
mesmo sob tortura.
Permanecerá o tempo,
o tempo, como rocha
dura e invisível,
e tudo por aqui seguirá
a se repetir,
se repetir.
III
Há um quintal
de vespas e clorofila,
onde depositei as manhãs
de outrora.
Há um quintal de orvalho
e migalhas de pão,
onde fantasmas errantes
esmolam pratos de comida
e chumbo.
Há um quintal silencioso
onde as laranjas não caem do pé
e as lagartas nunca se tornam
borboletas.
Há um quintal onde o presente
é só uma lembrança;
onde os gafanhotos não formam nuvens
e as formigas perambulam bêbadas
pelo muro.
Nesse quintal
os cachorros nunca dormem
à sombra do cinamomo,
e as flores ficam abertas
durante séculos inteiros.
Nesse quintal
é sempre de manhã
e o sol permanece imóvel
em um conforto incessante.
Nesse quintal não há morte:
enquanto perdurar o silêncio,
todas coisas permanecerão
exatamente assim:
imutáveis.
Daquele silêncio
recordo as palavras
que não foram ditas.
Era de manhã
entre o orvalho, as formigas
e o amarelado da infância.
(Naquele tempo,
era sempre de manhã).
Lembro das vozes
caladas atrás da
respiração
e de como o quintal
parecia não caber
em meu olhar.
Eram palavras, palavras,
mas soavam como folhas
em branco.
Eu nunca poderia esquecer:
estrelas dançavam
feito vaga-lumes
por detrás do azul
e eu apenas aplaudia
silenciosa-
mente.
II
Não sei se o tempo passava
ou se era como um retrato
permanecendo,
permanecendo.
Não que faltassem ponteiros
a girar pelas paredes
e no alto das catedrais:
eles estavam lá. E giravam,
giravam.
Mas o tempo
transborda os ponteiros
e o calendário.
Parece mais com a parede
que com o relógio dependurado.
O tempo, o tempo
não cabe em agosto
ou nas catedrais.
O tempo não cabe nas fotos
dos calendários de farmácia
(essas apenas nos mostram
que os dias são todos
iguais).
O tempo, o tempo
transborda os retratos
do que não passa;
esconde-se atrás dos olhos
de cada um.
Constrói fortalezas,
impérios ocultos,
dissolve, uma a uma,
todas as manhãs.
O tempo, o tempo
não desvelará seu corpo
nas ruas ou nos cabarés;
não dirá segredos,
mesmo sob tortura.
Permanecerá o tempo,
o tempo, como rocha
dura e invisível,
e tudo por aqui seguirá
a se repetir,
se repetir.
III
Há um quintal
de vespas e clorofila,
onde depositei as manhãs
de outrora.
Há um quintal de orvalho
e migalhas de pão,
onde fantasmas errantes
esmolam pratos de comida
e chumbo.
Há um quintal silencioso
onde as laranjas não caem do pé
e as lagartas nunca se tornam
borboletas.
Há um quintal onde o presente
é só uma lembrança;
onde os gafanhotos não formam nuvens
e as formigas perambulam bêbadas
pelo muro.
Nesse quintal
os cachorros nunca dormem
à sombra do cinamomo,
e as flores ficam abertas
durante séculos inteiros.
Nesse quintal
é sempre de manhã
e o sol permanece imóvel
em um conforto incessante.
Nesse quintal não há morte:
enquanto perdurar o silêncio,
todas coisas permanecerão
exatamente assim:
imutáveis.
Wednesday
Poeminha Rodoviário n° 2
Cigarro apagado na calçada;
plataforma 8
(vai-se embora).
A cidade se deixa observar
de fora, nua,
ganha uma beleza que não tem
vista de suas ruas
e vai-se embora.
Coxilhas correndo na janela;
um arvoredo distante;
um andarilho
e um pálido milharal
(vão-se embora;
tudo vai-se embora
e um céu desesperado
engole, um a um,
todos os viajantes).
plataforma 8
(vai-se embora).
A cidade se deixa observar
de fora, nua,
ganha uma beleza que não tem
vista de suas ruas
e vai-se embora.
Coxilhas correndo na janela;
um arvoredo distante;
um andarilho
e um pálido milharal
(vão-se embora;
tudo vai-se embora
e um céu desesperado
engole, um a um,
todos os viajantes).
Friday
Poeminha Rodoviário n° 1
Cigarro caído,
queimando solitário
ao fim da tarde
entre os chicletes
e os canhotos de bagagem:
sombra calada e ainda morna
de um adeus.
queimando solitário
ao fim da tarde
entre os chicletes
e os canhotos de bagagem:
sombra calada e ainda morna
de um adeus.
Wednesday
Poema de Trinta
Trinta vezes acordar
como em estranho nascimento
e entoar o uivo necessário
do amanhecer.
Trinta vezes olhar
para o mesmo espelho
e ver que quase nada
mudou.
Trinta vezes assistir
ao despetalar dos ipês no asfalto
e trinta vezes sentir o cheiro
do jasmim.
Trinta vezes bater fotos três por quatro;
trinta vezes ganhar uma calça jeans;
trinta vezes ouvir canções de Roberto Carlos
e trinta vezes assistir à crucificação.
Trinta vezes
desfolhar o calendário
e ser lentamente devorado
por ele.
como em estranho nascimento
e entoar o uivo necessário
do amanhecer.
Trinta vezes olhar
para o mesmo espelho
e ver que quase nada
mudou.
Trinta vezes assistir
ao despetalar dos ipês no asfalto
e trinta vezes sentir o cheiro
do jasmim.
Trinta vezes bater fotos três por quatro;
trinta vezes ganhar uma calça jeans;
trinta vezes ouvir canções de Roberto Carlos
e trinta vezes assistir à crucificação.
Trinta vezes
desfolhar o calendário
e ser lentamente devorado
por ele.
Saturday
Tocaia
Que venha o tempo com sua navalha,
rodopiando pelas esquinas.
Estarei sob juramento
às lembranças que conquistei.
Que venha! Que venha o tempo!
Estarei pronto para a luta.
Recuerdos apontando ao céu
feito lanças frias e mortais,
e um nome gravado no chumbo
da memória.
Que venha o tempo com seus morteiros
arruinando cidades e cemitérios.
Sempre é possível reconstruir
as paisagens da infância,
a música da tua língua
e o cheiro exato do amanhecer.
Pois então, que venha! Que venha o tempo
feito cão raivoso de pesadelo;
que venha o tempo feito muralha
que se move.
Que venha! Que venha o tempo!
E que chegue na hora marcada.
rodopiando pelas esquinas.
Estarei sob juramento
às lembranças que conquistei.
Que venha! Que venha o tempo!
Estarei pronto para a luta.
Recuerdos apontando ao céu
feito lanças frias e mortais,
e um nome gravado no chumbo
da memória.
Que venha o tempo com seus morteiros
arruinando cidades e cemitérios.
Sempre é possível reconstruir
as paisagens da infância,
a música da tua língua
e o cheiro exato do amanhecer.
Pois então, que venha! Que venha o tempo
feito cão raivoso de pesadelo;
que venha o tempo feito muralha
que se move.
Que venha! Que venha o tempo!
E que chegue na hora marcada.
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